Cantinho do Charme

Jorge Luis Saint-Clair Campos - domingo, 5 abril , 2015

Mozart

Jorge Luis Saint-Clair Campos - domingo, 5 abril , 2015

MPB

Jorge Luis Saint-Clair Campos - domingo, 5 abril , 2015
Maquiagem
Amadé - Mozart
MPB - Musica - musique

MPB

SANS TRADUCTION POUR LE MOMENT. DÉSOLÉ.

O que foi que aconteceu com a Música Popular Brasileira?

O título acima, como alguns perceberam, faz menção à música “Arrombou a Festa” de Rita Lee. Na verdade, eu preferiria que o título fosse apenas “O que foi que aconteceu com a música brasileira?”, pois, quando se coloca MPB (Música Popular Brasileira), todos acham que vamos falar de uma música elitista e não popular. Isso soa, realmente, como um tremendo paradoxo.

Música e Letrista

Mas a pergunta é pertinente nesses tempos de entressafra de boas canções. Não quero dizer que não hajam bons cantores e bons instrumentistas, mas há uma falta acentuada de bons letristas. E isso causa uma queda de qualidade nas músicas. Nós ouvimos muitas letras repetitivas, versos terminados com as mesmas rimas; em suma, parafraseando a Legião Urbana, mais do mesmo. E olha que eu procuro ouvir de tudo um pouco (nesses tempos de Internet, existe essa comodidade), pois não quero parecer radical do tipo “não ouvi e não gostei”.

MPB

Chico Buarque, no início desse século, disse que “a canção brasileira como conhecemos no século 20 não existe mais”. Isso, para mim, não é uma crítica e sim uma constatação. Toda uma grande geração de bons compositores envelheceu e não ocorreu, até agora, uma renovação de peso. Tudo bem, o século passado tá logo ali e, talvez, seja cedo para cobrarmos isso. Mas os meios de comunicação sempre procuram colocar novidades no mercado e a urgência gera uma repetição infinda. Realmente, mais do mesmo…

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Música Popular Brasileira e a Mídia

Porém, sem querer insistir na nostalgia, eu vejo que a demanda da mídia é muito maior que a produção musical atual, ou seja, os comerciais, novelas e minisséries  de televisão necessitam colocar músicas “antigas” (eu coloquei aspas, porque eu considero essas canções ainda atuais) para suprir essa necessidade. Senão vejamos: você vai ver Malhação e toca Rita Lee na abertura (Agora Só Falta Você), olha o comercial da Johnson’s & Johnson’s e escuta Seu Jorge cantando um sucesso de Jair Rodrigues (Deixa Isso Pra Lá), na novela  Império aparecia o The Beatles com Lucy in the Sky With Diamonds, em Babilônia Pra que chorar de Vinícios e Toquinho, ou assiste a minissérie O Caçador e ouve Secos & Molhados (O Patrão Nosso de Cada Dia). Isso sem falar em vários outros comerciais e novelas com temas inesquecíveis do século 20: O Trem Azul, Nascente, Beatriz, Maravida, Everything I Own, etc… É claro que, como você percebeu, citei alguns sucessos internacionais também. Mas foi só para exemplificar essa necessidade de temas musicais (bons) para preencher as produções televisivas, pois, no fundo, não há quase nada de novo sob o sol.

E o interessante é perceber que, com as imagens interligadas, até os jovens gostam dessas músicas. Talvez, se fossem apenas ouvi-las sem o auxílio das imagens, achariam velhas e ultrapassadas. O mestre Paulinho da Viola disse uma vez que “Eu não vivo no passado. O passado é que vive em mim.” Nada mais correto e normal. Todos nós temos um passado que vive em nós. Me lembro até hoje da Copa do Mundo de 1994, quando o Brasil sagrou-se tetracampeão e Romário disse que Pelé foi tri e ele era tetra. Bem, para ele ser tetra, foi preciso toda uma geração anterior que chegou até o tri. De qualquer forma, o próprio Romário admitiu anos mais tarde que já havia falado muita merda” na vida e eu, agora, bato palmas pra ele, pois foi alguém que se reiventou. Adquiriu mais cultura, tornou se mais sensato e coerente. Mas, voltando à música, é importante que nunca esqueçamos nosso passado para que consigamos voltar a fazer uma música de qualidade.

Sem Críticas

Quando citei acima música de qualidade, não quis criticar quem gosta de funk, rap, hip hop, sertanejo, axé, etc… Há gosto para tudo e há espaço para todos. É bom que seja sempre as assim, pois a diversidade pode apontar novos caminhos e novas descobertas.  Na verdade, como já falei, temos bons cantores e ótimos instrumentistas. O que sinto falta são dos compositores com suas letras inspiradas, poéticas, reveladoras e, às vezes, proféticas e transgressoras.

Músicas de Outrora

É difícil resistir, mesmo para quem não goste ou não conheça direito ou não queira admitir, a versos tão líricos como os de Orestes Barbosa em Chão de Estrelas (“E a lua furando o nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão (…) E tu pisavas nos astros distraída…), Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito em A Flor e o Espinho (“Tire o seu sorriso do caminho/Que eu quero passar com minha dor (…) Meu erro foi juntar minha alma à sua/O sol não pode viver perto da lua.”), Wilson Batista em Meu Mundo è Hoje (“Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim/ Meu mundo é hoje, não existe amanhã pra mim…”), Tom Jobim e Vinícius de Moraes em Eu Sei Que Vou Te Amar (“Eu sei que vou te amar/Por toda minha vida eu vou te amar/Em cada despedida eu vou te amar…”), Paulinho da Viola em Dança da Solidão (“Solidão é lava que cobre tudo/Amargura em minha boca/Sorri seus dentes de chumbo…), Chico Buarque e Edu Lobo em Moto Contínuo (“Homem também pode amar e afagar seu ofício porque/Vai habitar o edifício que faz pra você…”), Sérgio Bittencourt em Modinha (“Vejo o sol findando lento/Sonho um sonho de adulto/Minha voz na voz do vento/Indo em busca do teu vulto/E o meu verso em pedaços/Só querendo o teu perdão/Eu me perco nos teus passos/E me encontro na canção.”), Caetano Veloso e Torquato Neto em Mamãe Coragem (“Mamãe, mamãe não chore/Não chore nunca mais, não adianta/Eu tenho um beijo preso na garganta/Eu tenho um jeito de quem não se espanta…), Cartola em As Rosas Não Falam (“Queixo-me às rosas, mas que bobagem/As rosas não falam/Simplesmente as rosas exalam/O perfume que roubam de ti…) , Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira em Asa Branca (“Quando olhei a terra ardendo/Qual fogueira de São João/Então eu disse: Adeus, Rosinha/Guarda contigo meu coração.”), Gilberto Gil em Estrela (“Há de surgir uma estrela no céu cada vez que ocê sorrir/Há de apagar uma estrela no céu cada vez que ocê chorar) , Roberto Carlos e Erasmo Carlos em Como é Grande o Meu Amor Por Você (“Eu tenho tanto pra lhe falar/Mas com palavras não sei dizer/Como é grande o meu amor por você…)  e a tantas outras composições de nossa música.

Curiosidade e MPB

Se não tiverem a curiosidade de ouvir, pelo menos tenham a curiosidade de ler as letras desses e de outros grandes compositores como Noel Rosa, Ary Barroso, Paulo César Pinheiro, Dorival Caymmi, Lamartine Babo, Assis Valente, Capinam, Vítor Martins, Djavan, Newton Mendonça, Geraldo Pereira, Nei Lopes, Raul Seixas, Jorge Ben Jor, Tim Maia, Aldir Blanc, Fagner, Alceu Valença, Zé Ramalho, Belchior, Milton Nascimento, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Fátima Guedes, Waly Salomão, Abel Silva, Zé Dantas, Cazuza, Fausto Nilo, Vital Farias, Renato Russo, Lulu Santos, etc… Pouco espaço para tantos nomes. Acrescente os de sua predileção.

Vocês descobrirão verdadeiras pérolas, rimas ricas, poesia pura…  Se encontrarão dentro de algumas delas, recordarão bons momentos ou, simplesmente, sentirão uma sensação boa ao vislumbrar a beleza dessas composições e ao constatar que a música brasileira é de uma riqueza infindável.

Veja os links:

Livros MPB

 Crítico de Música

6 comments

  1. Realmente este post definiu bem o que eu sinto, o MPB hoje em dia está carente.
    Li e concordei no texto em que dizia que essas musicas não são “velhas” , na verdade eu acho a maioria delas muito atuais, este mês me vi em uma situação, e escutei uma belíssima canção do Belchior e naquele mesmo momento senti que aquela música me definia muito bem em alguns aspectos.
    Pensei, como pode uma música que foi criada se eu não me engano em 1977, poderia me atingir dessa forma em 2015.
    A minha única conclusão foi que essas pessoas , esses compositores estavam a frente do seu tempo, a minha grande pergunta é, porque a maioria deles perderam a inspiração ?

    1. Oi Vinicius, será que a MPB está carente ou será que as musicas da atualidade não dão espaço para o outrora? A música não para no tempo e realmente o que é bom fica. A mídia vem com uma outra proposta de música e gritaria mas quem é bom NÃO perde a inspiração, talvez perderam espaço :o)

  2. Sim, eu acho que o tempo realmente mudou. Está correta quando afirmou que o que é bom fica, eu particularmente não consigo esquecer o que me agrada. Quando afirmou que eles não perderam a inspiração eu discordo um pouco. Imagine, olhe tudo ao redor, veja como estão as coisas agora, as pessoas hoje em dia não são sensíveis como outrora, talvez por esse motivo os grandes compositores deixaram de exibir a sua arte para o mundo, talvez por deixar de acreditar nas pessoas e nos seus respectivos gostos.
    Mas eu particularmente eu ainda acredito, tanto na MPB quanto nas pessoas, no amor, nas paixões , enfim, viver é acreditar.
    Viva a MPB, ainda que pareça estar escassa, afinal de contas tudo que é bom, na maioria das vezes não temos em abundância.

    1. Eu amo a MPB e isso me faz falta como antes… Os fortes da MPB ainda continuam fortes e a inspiração ainda está lá o que mudou foi o gosto por musicas patéticas e sem letras nos nossos tempos atuais…

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